Páginas

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Pra não perder a prática


É... Me deu vontade de escrever. Já estou com essa vontade há alguns dias, mas assunto que é  bom não vinha na cabeça. Quer dizer... Assunto até que vinha, mas não tão empolgante que me fizesse ligar o computador, catar o mouse na tela e finalmente abrir o Word. Até aí, a ideia tinha ido embora e eu fiquei sem texto.

Mas agora do nada a vontade voltou. E porque não escrever? E porque não escrever sobre escrever? E porque não escrever sobre escrever escrevendo? Opa! Isso foi um pleonasmo?

Só neste semestre, ou seja, quase um ano depois de acabar o curso de Jornalismo, fui descobrir que não era bem o contar uma história ou dar a minha opinião que me fazia escrever. Gosto sim de fazer isso, mas é algo mais que realmente me faz querer escrever. Redigindo realeses e notícias descobri que o que me motiva mesmo escrever é o simples digitar.

O som das teclas chega a ser até uma terapia. Talvez seja a melhor parte do dia. Consigo até analisar teclados melhores para digitar. Agora, por exemplo, digito de um notebook – em tempos modernos, já é considerado velho, de uns cinco anos atrás - que parece não ter amortecedor. Bem mais diferente dos notebooks mais novos que os dedos chegam deslizar pelo teclado. Mas ainda sim prefiro o antigo teclado do PC. Esse sim, fiel, sem muitas mudanças, e que está lá para salvar qualquer um.

E de repente, as teclas me chamaram, me chamaram, e cá estou eu escrevendo algo sobre minhas vontades. É... Acho que foram essas teclas que me deram saudades de escrever...

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Metas


E toda vez é assim. Eu resolvo colocar a meta de escrever alguma coisa todo dia. Faço o primeiro texto com três parágrafos e digo pronto. Amanhã só mais um. Aí a noite passa, um assunto novo vem, um vídeo novo vem, uma música nova vem e o segundo texto vai ficando lá no primeiro dia.

Mas eu sou teimosa! O terceiro dia vem e eu recomeço de novo. Vou lá, abro meu querido Word e...e...e...e...e...só consigo ver o cursor piscando. Aquela folha branca clareando toda a tela. Tento mudar a cor da folha, que tal um amarelinho? Um rosinha? Um verdinho? Um arco-íris inteiro? Nada. O segundo texto que está sendo escrito no terceiro dia não quer aparecer.

Mas aí talvez seja hora de buscar inspirações. E lá vai mais uma vez uma música nova, um vídeo novo e uma novela nova pra tirar toda a minha atenção. Resultado: deixo a meta de lado e acabo escrevendo depois de dois meses o texto que eu queria ter escrito no segundo dia. E o melhor: veio naturalmente, sem esforço e logo que acordei. Simples assim.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Informação correta ou rapidez?

Um dos grandes mitos do jornalismo é o furo jornalístico. Todo jornalista quer dar o furo. E eu, como pertencente dessa classe, também espero que o meu dia chegue. Porém, acho quase impossível. Não acredito mais em furo jornalístico, e acho que ele está com os dias contados. Aliás, acredito que o furo jornalístico é um enorme caminho ao erro. Digo isso, porque no cenário atual - com vários meios para se obter uma notícia rapidamente - a apuração, antes tão importante, é quase esquecida. Um exemplo disso foi a foto do Osama Bin Laden morto que foi rapidamente divulgada por uma TV Paquistanesa, pelo canal pago Globo News e pelo Portal R7. Esse último, dando a notícia depois de muitos tweets desmentindo a informação. A foto era uma montagem. Mas ávidos por um furo, por mais audiência ou simplesmente para preencher espaço, as emissoras divulgaram a foto sem antes dar uma olhada no Twitter. Ferramenta que também furou o furo jornalístico. E sem nem mesmo a notícia ter acontecido como mostra o Mídia8 neste link.

Diante desses fatos o que é mais importante? Um jornalismo que dá informação sem ao menos pensar nela, mas que dá primeiro ou um jornalismo que demora algumas horas, mas dá uma informação correta, concreta e oficial? 

Particularmente, como consumidora de informação, prefiro sim, o veículo que me traga a informação correta mesmo tendo demorado. Jornalismo é isso. Informação correta. Especulações, supostas notícias, idéias surgidas, qualquer um pode fazer. É só ter alguma conta em alguma rede social, ou ter simplesmente um blog. Propagar informação sem ter um embasamento certo é coisa de amador. Qualquer um faz. E se é pra fazer isso, desse jeito, infelizmente vou ter que ser obrigada a concordar com os ministros do STF: não é preciso ter diploma pra jornalismo, não é preciso estudo teórico, não é preciso perder 4 anos de sua vida. Só é preciso saber escrever, ou talvez nem isso.

terça-feira, 26 de abril de 2011

E num desses dias...


Carlos chega em casa e vê sua noiva hipnotizada em frente à TV. Vai direto para a cozinha, sem se importar com o fato. Depois de dez minutos ouve uma voz gritar seu nome. É sua noiva.
- O que foi, amor? – pergunta Carlos.
- Nós não vamos nos casar neste final de semana! Vamos ter que adiar nosso casamento!
- Como assim? Aconteceu algo na sua família? Ou foi na minha? Meu Deus! – grita Carlos, como se tivesse se lembrado de alguma coisa – Será que o tio José se foi de vez?
- Carlos, para de frescura, homem! Não é nada disso! O fato é que o nosso casamento vai ter que ser adiado porque Kate Middleton vai se casar no mesmo final de semana que nós.
Um pequeno momento de silêncio se instala entre o casal. Carlos tenta compreender. “Ela está ficando louca? Como ela pode falar isso tranquilamente?”. Ao que Carlos pergunta pausadamente:
- Não vai me dizer que o príncipe da Inglaterra resolveu se casar na igreja de Santo Agostinho que fica aqui no bairro?
- Claro que não, Carlos! Imagina que um príncipe vai se casar numa igreja de um bairro no interior do Brasil!
- Então, porque vamos ter que adiar o nosso casamento?
-Simples. Porque eu preciso ver o modelo do vestido da noiva do príncipe.
- Você pode ver isso depois... Não precisa ser na hora de dizer sim para o padre!
- E casar com um modelo do século passado? Casar com um vestido que não tem nada a ver com que o século 21 vai usar? Eu tenho cara de alguém que usa vestido do século 20? – pergunta enfurecida.
- A camiseta que você está usando é de 1999...
Percebendo o ar de deboche de Carlos, Ana, a noiva, ficou furiosa.
- Pare de deboche! Isso é muito importante! A partir desta data, todos, eu disse todos os casamentos que irão acontecer terão esse casamento como base! E nós iremos nos casar tendo base o século 20?
- Ana... Os convites já foram entregues...
- Meu Deus! Os convites! Preciso remodelar! Como eram os convites da realeza?
- Ana, você não está falando sério! Já gastamos muito e tudo já está quase pronto...
- Mas não está pronto! Ainda não casamos! Podemos mudar!
- Mudar por quê? Tudo já estava tão bonito...
- Bonito... Mas não lindo! Eu vou refazer meu casamento de novo!
- Ana, se continuar com isso, quem não casa sou eu! Quero ver casamento sem noivo!
- E eu quero ver casamento sem noiva! Por que se não adiarmos nosso casamento eu não apareço no altar!
- Então, tá decidido! Não nos casamos!
- Ok, não nos casamos. Neste final de semana.
Emburrados, os dois não se falaram no resto da noite. Já deitados um ao lado do outro, Ana resolveu finalizar a conversa:
- Carlos, você está acordado?
- Ana, não comece a incomodar... Durma e amanhã conversamos...
- Sabe... Foi até bom decidirmos não nos casarmos... Agora tenho bem mais tempo para copiar o casamento da futura princesa...
Carlos se vira e resolve dormir.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Expectativas

Havia saído de casa sem a menor pressa. Caminhava pelas ruas com a leveza que sua consciência tinha até aquele momento. Estava ventando. Seus cabelos dourados atrapalhavam sua visão. Estava contra o vento. Desse modo não viu se aproximar aquele rapaz de olhos escuros e penetrantes. Ele andava com sua bicicleta rapidamente tentando fugir da tempestade que se aproximava. Mal sabia os dois que fora a tempestade que ajudara no primeiro encontro.

Sara, que a um segundo atrás atravessava a rua, agora estava deitada no chão. Felipe estava do outro lado, com uma perna em cima da bicicleta e a outra embaixo. Haviam colidido. Nada grave. Alguns arranhões aqui e outros acolá. Mas isso não impediu que os dois levantassem e apontassem culpados.

Existia ali uma tensão. Nenhum dos dois levava desaforo pra casa. Em meio a insultos, um dos comerciantes que estava ali perto, assistindo a discussão, resolveu aconselhar para que trocassem seus contatos, e assim poderem detalhar os prejuízos. A ideia deu certo até que Felipe soltasse o seguinte comentário ao entregar o papel com seu contato:

- Vê se não joga fora, menininha mimada.

O rosto de Sara, que naquele ponto já havia começado a voltar para sua cor normal, começara a avermelhar novamente. Nos seus olhos saltavam faíscas de raiva. “Ora” – pensou – “me chamar de mimada? Eu que tenho trabalhado a cada segundo para terminar meus estudos, e sou chamada de mimada? ”. O estrago estava feito. Ela pegou o papel, rasgou, virou as costas e saiu rua abaixo, com uma fúria que jamais sentira.

Quando chegou em casa, Sara não lembrava mais porque havia saído naquele dia. Agora a garoa começava a bater na janela. E seu simples apartamento parecia o lugar perfeito para estar. Foi ao banheiro, pegou a caixa de remédios, limpou os arranhões, que se detiveram nos cotovelos e no joelho direto. Quando terminara de fazer os curativos, resolveu ligar a TV. Passava uma daquelas comedias românticas. O ator principal tinha os olhos parecidos com os que vira naquele rapaz. Tentava lembrar o nome. Fábio? Fernando? Era Felipe. Mas de quê? Havia de ser qualquer um. A raiva agora já passara. Agora rira dos infortúnios ditos. Como podia ter feito aquilo? O garoto só queria fugir da tempestade. E se não fossem seus cabelos - um elástico nessas horas cairia bem - nada teria acontecido. Teria prestado atenção e não bateria na bicicleta. Não havia mais nada a fazer. Apenas uma coisa: pedir desculpas. Mas rasgara o papel. Lembrara-se que dera o papel do contato dela. E ele guardara no bolso. Como era o nome completo dele, mesmo?

Felipe ficara ao lado do comerciante sem entender nada. Porque se enfurecera? Por causa do mimada? Devia ser. O que provava sua opinião. Era mimada e odiava que a verdade lhe fosse dita. Respirou fundo, pediu desculpas ao comerciante e tratou de voltar para casa antes que a tempestade viesse. Fora caminhando.

Quando chegou em casa, sua mãe se assustara com o machucado, mas havia dito que só tinha caído da bicicleta e não era nada demais. Sua mãe fez os curativos e determinou que ele não mexesse a perna. Ele foi até o quarto, ligou o som num nível alto, e deitou na cama. Fechou os olhos. O rosto de Sara lhe veio à mente. Aqueles cabelos dourados, que se misturavam com o avermelhado de sua pele, saltitavam uma beleza única. Pena que era criança demais. Discutira por causa de uma trombada. Trombada que ela tivera culpa. Colocou a mão no bolso. Achou o bilhete que ela havia lhe dado. Sara de Freitas. Seu telefone e e-mail estavam ali também. Decidiu que iria ligar depois que olhasse os estragos na bicicleta. Devia ter estragado o aro, no mínimo. Agora já pegara no sono.

Levantou-se logo cedo. Sara não conseguira dormir muito bem. Passara a noite toda sonhando com o tal Felipe. Ele não ligara. Ela não se lembrava de nenhum contato dele. Nem do sobrenome. Fora até a cozinha. Tomou o café da manhã e saiu para o trabalho. Na rua olhava para todos os caras de bicicleta. Nenhum era ele. Ela o via de costas, e quando a bicicleta se aproximava ela notava que havia se enganado. Cada vez que chegava mais perto do trabalho, diminuía o ritmo da caminhada. Mas nada. Ele simplesmente não existia mais.

Felipe acordou, e foi direto na garagem ver o estado de sua bicicleta. Estava perfeita, exceto a sujeira em que ela estava. Não havia nada a consertar. Nada a dizer. Seu orgulho não o fazia reconhecer que fora ele que bateu e que devia desculpas a ela. Chegou a pensar nisso, só para poder ligar, mas desistiu logo em seguida. Tinha agora que se arrumar e ir para mais um dia de trabalho. Mas guardara novamente o papel de Sara no bolso. Até o final do dia acharia uma desculpa para ligar.

Sentara-se em frente ao computador. Sara não conseguia tirar o pensamento do rapaz. Lembrara-se de seus olhos e de como sua boca mexera com ela. Tentava tirar do pensamento as imagens do sonho que tivera. Mas elas insistiam em atormentar durante todo o dia.

Olhara no relógio. O dia estava acabando e não achara nenhuma desculpa para ligar. Felipe olhava aquele papel. Olhava para o telefone e não criava coragem. Como ele poderia ligar para uma pessoa e chamá-la para sair, se somente brigou com ela? Não. Definitivamente ele não poderia. Se pudesse, era óbvio que receberia um grande e sonoro não. Não queria passar por essa humilhação. Mas o telefone continuava lá.
Agora começava a anoitecer e ela tinha de correr para a faculdade. Mas como se concentrar se somente uma imagem aparecia? Se apenas um nome lembrara? Se a vontade de saber mais gritava mais alto? Era preciso tomar alguma atitude. Mas a única atitude a tomar era lembrar-se do sonho.

Podia ser o e-mail? Algo impessoal? Pedindo desculpas? As perguntas atormentavam Felipe. Será que ele devia pedir desculpas? Mas ele não fizera nada! Por que pedir desculpas? Era a única coisa que poderia falar com ela naquele momento. Assim não corria o risco de humilhação e a partir daquilo poderia começar a conversar. Era isso. Escreveria um e-mail.

Chegara em casa. Sara tinha a esperança de encontrar uma mensagem de Felipe em seu e-mail. Ligara o computador. A cada segundo sua respiração ficava cada vez mais forte. Abriu seu e-mail. Nada de mensagem de algum Felipe. Nada. Ele não escrevera.

Felipe sentou-se na cadeira e começou a escrever seu e-mail de desculpas. Em poucos minutos estava pronto. Fora bem sucinto. Agora era só enviar. Enviou e desligou o computador. Já era tarde e tinha que dormir.

Sara estava cabisbaixa. Por que ele não mandou algum e-mail ou telefonara? Nada de Felipe. Agora tinha que seguir em frente e parar de pensar nele. Mas como parar se a sua cabeça insistia em trazer de volta a imagem dele? Imediatamente levantou da cama apavorada. “Como eu pude fazer uma burrice daquelas? Dei meu e-mail errado!”.

Felipe levantara e fora correndo para o computador. “Ela deve ter respondido.”, pensava ele. Ligara o computador. Nada. A não ser um e-mail dizendo para aumentar seu pênis. Nada. “Peraí, o que é isso?”. Olhou e viu que o e-mail havia voltado. O endereço estava errado. Olhou, comparou com o que ela tinha dado. Mas está certo! Ela me deu o endereço errado! Com certeza o número do telefone também estava errado.

Sara acordou e não conseguia se desculpar por aquilo. Não era de propósito. Havia trocado e se confundira de e-mail. Mas o telefone continuara o mesmo. Por que ele então não ligou?

A semana passara. O final de semana chegou. Felipe já havia desistido de procurá-la. Porém, Sara ainda tinha esperanças. Imaginava ele respondendo. Procurou seu perfil em todas as redes sociais que tinha conhecimento. Mas tem tantos Felipes! Como achar? Mas encarou a procura. E não achou. Decidiu então aceitar o convite pra inauguração de uma boate. Mas o tempo continuava instável, e a qualquer momento poderia chover. E ela odiava chuva.

Felipe não agüentara a pressão. Mesmo não gostando da boate decidiu ir. Quem sabe encontrava outra garota e continuava a seguir seu caminho? Seria ótimo. Mas o tempo estava para chuva. Azar. Iria assim mesmo. Chegara e o lugar tinha uma fila enorme. Começava a garoar.

Sara chamou um táxi. Combinou com uma amiga de se encontrarem na frente da boate. O celular tocou. Era sua amiga. Ela havia desistido por causa do tempo. Sara já tinha o convite e decidiu não voltar mais. Já estava ali. Entraria, nem que fosse sozinha. A rua que dava acesso à boate estava cheia. Sara pensou em sair antes do táxi e ir a pé, mas começava a chover e ela não estava nada a fim de chegar molhada. Enquanto o táxi se aproximava, mais começava a chover. De repente uma mão apareceu na porta do táxi. O motorista abriu a janela da porta. Perguntou: “A senhorita vai ficar aqui né? Por que daí eu pego outra corrida.”. Sara pensou por alguns segundos. Mas o taxista começou a insistir. Se ela demorasse mais ele perderia a corrida. Até que Sara decidiu: “Se ele não se importar em dividir a corrida comigo, o senhor ganha duas. Eu quero voltar para casa.”.

A chuva começou a engrossar. Felipe não estava a fim de se molhar ainda mais. E a fila não dava sinais de que seria rápida. Como ainda não tinha nem ingresso, decidiu ir embora. Olhou para a rua. Ela estava lotada. Não tinha nenhum táxi. Olhou mais um pouco e viu que ao longe se aproximava um táxi. Ele então correu em direção do carro. Quando chegou perto seu instinto foi bater na janela. Acabou batendo na janela de trás. O táxi parou. Ele bateu mais uma vez. O taxista abriu a janela e disse: “Olha, estou fazendo uma corrida e parece que a menina não vai descer. Se quiser um táxi pode entrar aí atrás, mas vai ter que dividir com ela.”. Felipe aceitou. Não havia outro táxi por ali e ele já estava todo encharcado. Abriu a porta e entrou no táxi.

Sara afastou e sentou do outro lado do carro. Não vira a porta se abrir. Olhava o casal do outro lado da rua que ria mesmo com a chuva forte. De repente ela viu seu rosto e o rosto de Felipe ali naquele casal. Percebera, então, que algo molhava seu vestido. Olhou para o lado, e por um segundo pensou ter visto Felipe se materializar ao seu lado. Piscou algumas vezes. Era sim, Felipe. Ou seria alguém parecido com ele? Não, era Felipe. Tinha certeza. “Felipe?”, perguntou.

Felipe entrara e imediatamente tentava se secar. Passou a mão no cabelo e nem vira quem estava ao seu lado. Até que uma voz lhe perguntou: “Felipe?”. Ele reconhecia aquele som. Era muito familiar. De onde conhecia? Quando virou seu rosto, reconheceu os fios dourados que haviam percorridos seus sonhos durante aquela semana. Ele imediatamente retrucou: “Sara?”.

Sara não acreditava que aquele poderia ser Felipe. Era destino? Como ele pode entrar justo no seu táxi? Ela sorrira depois de ouvir sua voz dizendo seu nome. Fez sinal que sim com a cabeça. Aquela aura de primeiro encontro só foi interrompida pela voz do taxista: “Ei, rapaz! Onde quer que eu te leve?”.

Felipe demorou um pouco para sair do estado de hipnose. Saiu só depois do taxista repetir a pergunta. Ele então disse que iria para o bairro Peixoto.

Ao ouvir Peixoto saindo da boca de Felipe, Sara ficou surpresa: “Peixoto? Você também mora no bairro Peixoto?”.

- Sim, moro. O quê você acha que eu estaria fazendo no bairro quando nos pechamos?

- É verdade – respondeu Sara com um sorriso encabulado – o que faríamos nós dois num bairro essencialmente residencial andando depressa, não é?

Ao descobrirem que moravam no mesmo bairro há alguns anos a conversa girava em torno dos conhecidos que tinham em comum. Muitos, aliás. Como nunca se viram morando tão perto?

O taxista começara a se aproximar da casa de Sara. Ela então decidiu tomar coragem e convidar Felipe para ir à sua casa naquele momento. Os dois, como se tivessem ensaiado, disseram para o taxista que ficavam ali. Pagaram e saíram do táxi.

Sara estava extasiada. Imaginara tantos encontros diferentes, mas nunca pensara que poderia ser daquele jeito. Felipe não conseguia tirar seus olhos de Sara. Ensaiara durante toda aquela semana diversas formas de chegar nela. Não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Subiram até o apartamento de Sara.

Ainda sem graça Felipe sentou-se no sofá da sala enquanto Sara buscava uma cerveja para eles. Começaram a conversar. Falavam sobre tudo. Menos sobre eles. Felipe tomou coragem e se aproximou de Sara. Ficou tão perto que sentia a respiração ofegante dela. Tomou mais coragem. Até que ele a beijou.

Sara não conseguia acreditar. Esperou por tanto tempo por aquele beijo. E agora não sentia nem tesão? Um tiquinho que seja? Estava ansiosa, porque pensara ter encontrado seu príncipe encantado. Mas agora não sentia nem tesão? Parecia que o beijo acabara com todo o sonho. Beijou-o mais uma vez para ver se era mesmo aquilo. E viu que no sonho estava melhor.

Felipe estava com tesão sim, afinal ela era linda. Como podia só estar com tesão? Ele jurava que sentia alguma coisa a mais. O que foi que sentira durante toda aquela semana? Era apenas sonho? Por que agora ele não estava mais tão empolgado?

Após alguns beijos, Felipe sentiu que a presença dele naquela sala já não era tão requisitada. Sara ficara com ele, mas não tinha mais vontade de ir pra cama com ele. Os beijos de Felipe não eram ruins. O problema estava com ela. Mas com ele também. Sara viu que ele perdera a empolgação inicial.

Felipe puxou uma conversa banal. A conversa não estava mais animada. E a cerveja começara a esquentar. Ele então inventou uma desculpa para sair. Quando Felipe saiu pela porta, Sara se sentiu mais confortável, mas não menos incomodada. O que acontecera? O feitiço quebrara com um beijo? Um simples beijo?

Sara e Felipe saíram algumas vezes. Acabaram ficando algumas vezes para ver se a empolgação inicial voltava. Mas a cada vez que saíam mais distantes ficavam. Gostos diferentes, ideias diferentes, amigos diferentes, tudo diferente. Tudo o que faziam não dava certo.

Foi na praça do bairro Peixoto, enquanto crianças corriam ao redor, que eles decidiram que ficariam amigos. Amigos conhecidos. Os dois ecoavam naquela praça o famoso “o problema não é você, sou eu”. Quando a conversa terminou cada um foi para um lado. Sara olhou pra trás. “Ele era tão melhor no sonho...”, pensou Sara. Felipe olhou pra trás logo depois de Sara. “Ela era tão especial no sonho...”, pensou Felipe.

Os dois ainda sonharam por algum tempo um com o outro. Mas entenderam que somente no sonho conseguiam ficar juntos.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

[Opinião] Sobre cruzeiro e xingamentos


E a grande polêmica da semana que agitou os bares e os tuiteiros de plantão, foi o ato de preconceito da torcida do time de vôlei do Sada Cruzeiro contra o central do Vôlei Futuro, Michael. A discussão não ficou em torno do valor da multa que o Sada Cruzeiro irá ter pagar (alto? baixo? insuficiente? injusto?), mas sim se o ato foi mesmo discriminatório.

Desculpe, caro leitor, mas qualquer xingamento, seja por qualquer motivo (no caso, por motivo fútil, só pra botar “pressão”) é terrivelmente um ato discriminatório. Não importa se a pessoa for viado, puta, macaco, gordo ou qualquer outro palavreado usado por torcidas. É xingamento. É ofensivo. É preconceituoso. É discriminatório. É “feio”, como diria nossos pais. Principalmente se for só para botar “pressão”.

Quer botar pressão no time adversário? Quer apoiar seu time do coração? Então, cante! Cante o hino do seu time, uma paródia para apoiar seu time (por favor, sem ofensas), um ”aha,uhu, o campeonato é nosso”, ou qualquer outra coisa. Use sua criatividade. Faça seus pulmões vibrarem. Solte a voz com toda a força. Faça as paredes dos estádios tremerem e ecoarem suas vozes para todo o lugar. Façam um espetáculo bonito.