Havia saído de casa sem a menor pressa. Caminhava pelas ruas com a leveza que sua consciência tinha até aquele momento. Estava ventando. Seus cabelos dourados atrapalhavam sua visão. Estava contra o vento. Desse modo não viu se aproximar aquele rapaz de olhos escuros e penetrantes. Ele andava com sua bicicleta rapidamente tentando fugir da tempestade que se aproximava. Mal sabia os dois que fora a tempestade que ajudara no primeiro encontro.
Sara, que a um segundo atrás atravessava a rua, agora estava deitada no chão. Felipe estava do outro lado, com uma perna em cima da bicicleta e a outra embaixo. Haviam colidido. Nada grave. Alguns arranhões aqui e outros acolá. Mas isso não impediu que os dois levantassem e apontassem culpados.
Existia ali uma tensão. Nenhum dos dois levava desaforo pra casa. Em meio a insultos, um dos comerciantes que estava ali perto, assistindo a discussão, resolveu aconselhar para que trocassem seus contatos, e assim poderem detalhar os prejuízos. A ideia deu certo até que Felipe soltasse o seguinte comentário ao entregar o papel com seu contato:
- Vê se não joga fora, menininha mimada.
O rosto de Sara, que naquele ponto já havia começado a voltar para sua cor normal, começara a avermelhar novamente. Nos seus olhos saltavam faíscas de raiva. “Ora” – pensou – “me chamar de mimada? Eu que tenho trabalhado a cada segundo para terminar meus estudos, e sou chamada de mimada? ”. O estrago estava feito. Ela pegou o papel, rasgou, virou as costas e saiu rua abaixo, com uma fúria que jamais sentira.
Quando chegou em casa, Sara não lembrava mais porque havia saído naquele dia. Agora a garoa começava a bater na janela. E seu simples apartamento parecia o lugar perfeito para estar. Foi ao banheiro, pegou a caixa de remédios, limpou os arranhões, que se detiveram nos cotovelos e no joelho direto. Quando terminara de fazer os curativos, resolveu ligar a TV. Passava uma daquelas comedias românticas. O ator principal tinha os olhos parecidos com os que vira naquele rapaz. Tentava lembrar o nome. Fábio? Fernando? Era Felipe. Mas de quê? Havia de ser qualquer um. A raiva agora já passara. Agora rira dos infortúnios ditos. Como podia ter feito aquilo? O garoto só queria fugir da tempestade. E se não fossem seus cabelos - um elástico nessas horas cairia bem - nada teria acontecido. Teria prestado atenção e não bateria na bicicleta. Não havia mais nada a fazer. Apenas uma coisa: pedir desculpas. Mas rasgara o papel. Lembrara-se que dera o papel do contato dela. E ele guardara no bolso. Como era o nome completo dele, mesmo?
Felipe ficara ao lado do comerciante sem entender nada. Porque se enfurecera? Por causa do mimada? Devia ser. O que provava sua opinião. Era mimada e odiava que a verdade lhe fosse dita. Respirou fundo, pediu desculpas ao comerciante e tratou de voltar para casa antes que a tempestade viesse. Fora caminhando.
Quando chegou em casa, sua mãe se assustara com o machucado, mas havia dito que só tinha caído da bicicleta e não era nada demais. Sua mãe fez os curativos e determinou que ele não mexesse a perna. Ele foi até o quarto, ligou o som num nível alto, e deitou na cama. Fechou os olhos. O rosto de Sara lhe veio à mente. Aqueles cabelos dourados, que se misturavam com o avermelhado de sua pele, saltitavam uma beleza única. Pena que era criança demais. Discutira por causa de uma trombada. Trombada que ela tivera culpa. Colocou a mão no bolso. Achou o bilhete que ela havia lhe dado. Sara de Freitas. Seu telefone e e-mail estavam ali também. Decidiu que iria ligar depois que olhasse os estragos na bicicleta. Devia ter estragado o aro, no mínimo. Agora já pegara no sono.
Levantou-se logo cedo. Sara não conseguira dormir muito bem. Passara a noite toda sonhando com o tal Felipe. Ele não ligara. Ela não se lembrava de nenhum contato dele. Nem do sobrenome. Fora até a cozinha. Tomou o café da manhã e saiu para o trabalho. Na rua olhava para todos os caras de bicicleta. Nenhum era ele. Ela o via de costas, e quando a bicicleta se aproximava ela notava que havia se enganado. Cada vez que chegava mais perto do trabalho, diminuía o ritmo da caminhada. Mas nada. Ele simplesmente não existia mais.
Felipe acordou, e foi direto na garagem ver o estado de sua bicicleta. Estava perfeita, exceto a sujeira em que ela estava. Não havia nada a consertar. Nada a dizer. Seu orgulho não o fazia reconhecer que fora ele que bateu e que devia desculpas a ela. Chegou a pensar nisso, só para poder ligar, mas desistiu logo em seguida. Tinha agora que se arrumar e ir para mais um dia de trabalho. Mas guardara novamente o papel de Sara no bolso. Até o final do dia acharia uma desculpa para ligar.
Sentara-se em frente ao computador. Sara não conseguia tirar o pensamento do rapaz. Lembrara-se de seus olhos e de como sua boca mexera com ela. Tentava tirar do pensamento as imagens do sonho que tivera. Mas elas insistiam em atormentar durante todo o dia.
Olhara no relógio. O dia estava acabando e não achara nenhuma desculpa para ligar. Felipe olhava aquele papel. Olhava para o telefone e não criava coragem. Como ele poderia ligar para uma pessoa e chamá-la para sair, se somente brigou com ela? Não. Definitivamente ele não poderia. Se pudesse, era óbvio que receberia um grande e sonoro não. Não queria passar por essa humilhação. Mas o telefone continuava lá.
Agora começava a anoitecer e ela tinha de correr para a faculdade. Mas como se concentrar se somente uma imagem aparecia? Se apenas um nome lembrara? Se a vontade de saber mais gritava mais alto? Era preciso tomar alguma atitude. Mas a única atitude a tomar era lembrar-se do sonho.
Podia ser o e-mail? Algo impessoal? Pedindo desculpas? As perguntas atormentavam Felipe. Será que ele devia pedir desculpas? Mas ele não fizera nada! Por que pedir desculpas? Era a única coisa que poderia falar com ela naquele momento. Assim não corria o risco de humilhação e a partir daquilo poderia começar a conversar. Era isso. Escreveria um e-mail.
Chegara em casa. Sara tinha a esperança de encontrar uma mensagem de Felipe em seu e-mail. Ligara o computador. A cada segundo sua respiração ficava cada vez mais forte. Abriu seu e-mail. Nada de mensagem de algum Felipe. Nada. Ele não escrevera.
Felipe sentou-se na cadeira e começou a escrever seu e-mail de desculpas. Em poucos minutos estava pronto. Fora bem sucinto. Agora era só enviar. Enviou e desligou o computador. Já era tarde e tinha que dormir.
Sara estava cabisbaixa. Por que ele não mandou algum e-mail ou telefonara? Nada de Felipe. Agora tinha que seguir em frente e parar de pensar nele. Mas como parar se a sua cabeça insistia em trazer de volta a imagem dele? Imediatamente levantou da cama apavorada. “Como eu pude fazer uma burrice daquelas? Dei meu e-mail errado!”.
Felipe levantara e fora correndo para o computador. “Ela deve ter respondido.”, pensava ele. Ligara o computador. Nada. A não ser um e-mail dizendo para aumentar seu pênis. Nada. “Peraí, o que é isso?”. Olhou e viu que o e-mail havia voltado. O endereço estava errado. Olhou, comparou com o que ela tinha dado. Mas está certo! Ela me deu o endereço errado! Com certeza o número do telefone também estava errado.
Sara acordou e não conseguia se desculpar por aquilo. Não era de propósito. Havia trocado e se confundira de e-mail. Mas o telefone continuara o mesmo. Por que ele então não ligou?
A semana passara. O final de semana chegou. Felipe já havia desistido de procurá-la. Porém, Sara ainda tinha esperanças. Imaginava ele respondendo. Procurou seu perfil em todas as redes sociais que tinha conhecimento. Mas tem tantos Felipes! Como achar? Mas encarou a procura. E não achou. Decidiu então aceitar o convite pra inauguração de uma boate. Mas o tempo continuava instável, e a qualquer momento poderia chover. E ela odiava chuva.
Felipe não agüentara a pressão. Mesmo não gostando da boate decidiu ir. Quem sabe encontrava outra garota e continuava a seguir seu caminho? Seria ótimo. Mas o tempo estava para chuva. Azar. Iria assim mesmo. Chegara e o lugar tinha uma fila enorme. Começava a garoar.
Sara chamou um táxi. Combinou com uma amiga de se encontrarem na frente da boate. O celular tocou. Era sua amiga. Ela havia desistido por causa do tempo. Sara já tinha o convite e decidiu não voltar mais. Já estava ali. Entraria, nem que fosse sozinha. A rua que dava acesso à boate estava cheia. Sara pensou em sair antes do táxi e ir a pé, mas começava a chover e ela não estava nada a fim de chegar molhada. Enquanto o táxi se aproximava, mais começava a chover. De repente uma mão apareceu na porta do táxi. O motorista abriu a janela da porta. Perguntou: “A senhorita vai ficar aqui né? Por que daí eu pego outra corrida.”. Sara pensou por alguns segundos. Mas o taxista começou a insistir. Se ela demorasse mais ele perderia a corrida. Até que Sara decidiu: “Se ele não se importar em dividir a corrida comigo, o senhor ganha duas. Eu quero voltar para casa.”.
A chuva começou a engrossar. Felipe não estava a fim de se molhar ainda mais. E a fila não dava sinais de que seria rápida. Como ainda não tinha nem ingresso, decidiu ir embora. Olhou para a rua. Ela estava lotada. Não tinha nenhum táxi. Olhou mais um pouco e viu que ao longe se aproximava um táxi. Ele então correu em direção do carro. Quando chegou perto seu instinto foi bater na janela. Acabou batendo na janela de trás. O táxi parou. Ele bateu mais uma vez. O taxista abriu a janela e disse: “Olha, estou fazendo uma corrida e parece que a menina não vai descer. Se quiser um táxi pode entrar aí atrás, mas vai ter que dividir com ela.”. Felipe aceitou. Não havia outro táxi por ali e ele já estava todo encharcado. Abriu a porta e entrou no táxi.
Sara afastou e sentou do outro lado do carro. Não vira a porta se abrir. Olhava o casal do outro lado da rua que ria mesmo com a chuva forte. De repente ela viu seu rosto e o rosto de Felipe ali naquele casal. Percebera, então, que algo molhava seu vestido. Olhou para o lado, e por um segundo pensou ter visto Felipe se materializar ao seu lado. Piscou algumas vezes. Era sim, Felipe. Ou seria alguém parecido com ele? Não, era Felipe. Tinha certeza. “Felipe?”, perguntou.
Felipe entrara e imediatamente tentava se secar. Passou a mão no cabelo e nem vira quem estava ao seu lado. Até que uma voz lhe perguntou: “Felipe?”. Ele reconhecia aquele som. Era muito familiar. De onde conhecia? Quando virou seu rosto, reconheceu os fios dourados que haviam percorridos seus sonhos durante aquela semana. Ele imediatamente retrucou: “Sara?”.
Sara não acreditava que aquele poderia ser Felipe. Era destino? Como ele pode entrar justo no seu táxi? Ela sorrira depois de ouvir sua voz dizendo seu nome. Fez sinal que sim com a cabeça. Aquela aura de primeiro encontro só foi interrompida pela voz do taxista: “Ei, rapaz! Onde quer que eu te leve?”.
Felipe demorou um pouco para sair do estado de hipnose. Saiu só depois do taxista repetir a pergunta. Ele então disse que iria para o bairro Peixoto.
Ao ouvir Peixoto saindo da boca de Felipe, Sara ficou surpresa: “Peixoto? Você também mora no bairro Peixoto?”.
- Sim, moro. O quê você acha que eu estaria fazendo no bairro quando nos pechamos?
- É verdade – respondeu Sara com um sorriso encabulado – o que faríamos nós dois num bairro essencialmente residencial andando depressa, não é?
Ao descobrirem que moravam no mesmo bairro há alguns anos a conversa girava em torno dos conhecidos que tinham em comum. Muitos, aliás. Como nunca se viram morando tão perto?
O taxista começara a se aproximar da casa de Sara. Ela então decidiu tomar coragem e convidar Felipe para ir à sua casa naquele momento. Os dois, como se tivessem ensaiado, disseram para o taxista que ficavam ali. Pagaram e saíram do táxi.
Sara estava extasiada. Imaginara tantos encontros diferentes, mas nunca pensara que poderia ser daquele jeito. Felipe não conseguia tirar seus olhos de Sara. Ensaiara durante toda aquela semana diversas formas de chegar nela. Não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Subiram até o apartamento de Sara.
Ainda sem graça Felipe sentou-se no sofá da sala enquanto Sara buscava uma cerveja para eles. Começaram a conversar. Falavam sobre tudo. Menos sobre eles. Felipe tomou coragem e se aproximou de Sara. Ficou tão perto que sentia a respiração ofegante dela. Tomou mais coragem. Até que ele a beijou.
Sara não conseguia acreditar. Esperou por tanto tempo por aquele beijo. E agora não sentia nem tesão? Um tiquinho que seja? Estava ansiosa, porque pensara ter encontrado seu príncipe encantado. Mas agora não sentia nem tesão? Parecia que o beijo acabara com todo o sonho. Beijou-o mais uma vez para ver se era mesmo aquilo. E viu que no sonho estava melhor.
Felipe estava com tesão sim, afinal ela era linda. Como podia só estar com tesão? Ele jurava que sentia alguma coisa a mais. O que foi que sentira durante toda aquela semana? Era apenas sonho? Por que agora ele não estava mais tão empolgado?
Após alguns beijos, Felipe sentiu que a presença dele naquela sala já não era tão requisitada. Sara ficara com ele, mas não tinha mais vontade de ir pra cama com ele. Os beijos de Felipe não eram ruins. O problema estava com ela. Mas com ele também. Sara viu que ele perdera a empolgação inicial.
Felipe puxou uma conversa banal. A conversa não estava mais animada. E a cerveja começara a esquentar. Ele então inventou uma desculpa para sair. Quando Felipe saiu pela porta, Sara se sentiu mais confortável, mas não menos incomodada. O que acontecera? O feitiço quebrara com um beijo? Um simples beijo?
Sara e Felipe saíram algumas vezes. Acabaram ficando algumas vezes para ver se a empolgação inicial voltava. Mas a cada vez que saíam mais distantes ficavam. Gostos diferentes, ideias diferentes, amigos diferentes, tudo diferente. Tudo o que faziam não dava certo.
Foi na praça do bairro Peixoto, enquanto crianças corriam ao redor, que eles decidiram que ficariam amigos. Amigos conhecidos. Os dois ecoavam naquela praça o famoso “o problema não é você, sou eu”. Quando a conversa terminou cada um foi para um lado. Sara olhou pra trás. “Ele era tão melhor no sonho...”, pensou Sara. Felipe olhou pra trás logo depois de Sara. “Ela era tão especial no sonho...”, pensou Felipe.
Os dois ainda sonharam por algum tempo um com o outro. Mas entenderam que somente no sonho conseguiam ficar juntos.